segunda-feira, março 04, 2002

Como havia prometido, aí vai o discurso de formatura que o meu amigo Flávio Henrique fez na colação de grau da minha ex-sala.
Boa noite à todos!
Em momentos como este, ficamos mais sensíveis a questionamentos existencialistas. Aparece o medo do futuro e perguntas como De onde vim? para onde vou? e coisas do gênero. Surge a sensação de que a vida é um trem em alta velocidade que caminha diretamente para a colisão, e de que é preciso fazer alguma coisa antes que isso aconteça. Nessas horas, é inevitável o pensamento e a impressão de que as coisas poderiam ser melhor aproveitadas, de que não administramos o tempo direito e não conseguimos fazer metade do que queríamos. Essa reflexão pode até ser válida, desde que não nos impeça de olhar para o que vem pela frente, e abandonar o que não pode ser mais mudado.

Iniciamos o curso no dia dois de fevereiro de mil novecentos e noventa e oito, numa segunda à noite, por volta das dezenove e dez. Por coincidência, a primeira aula na faculdade foi de Filosofia I, ministrada pelo professor Luís Henrique, que hoje é um dos homenageados. Naquele dia, ele começou a dizer que existem muitas coisas medonhas no mundo, a execrar o pagode e o axé music, e a falar bem de todos os discos do Chico Buarque. A gente abriu um ciclo com ele, e está fechando este ciclo agora.

Dos trinta e nove jornalistas que colam grau hoje, vinte estão juntos desde o primeiro semestre, e quinze, desde aquela primeira segunda-feira, na aula do professor Luís. Para nossa alegria, os demais se juntaram a nós nos períodos seguintes, formando esta massa heterogênea de jornalistas. Aproveitamos para nos lembrar com carinho de muitos colegas que iniciaram o curso naquela noite, que, por sinal, estão na platéia e vão se formar nos próximos semestres, enquanto alguns poucos seguiram outros caminhos. Entre estes, o colega Cristiano, que conviveu com a turma apenas por uns dois meses, no quarto período, antes de falecer em um acidente de carro. Como vêem, somos privilegiados por chegar até aqui.

Aliás, até o que passou pelas maiores dificuldades financeiras durante o curso deve se considerar pertencente ao Brasil dos privilegiados, daqueles que conseguem concluir um superior num país em que o percentual de universitários é ridículo, e que na maioria das vezes, a educação é encarada como forma de enriquecimento para poucos, em detrimento do crescimento pessoal e cultural do universitário.

Daqueles tempos pra cá, não temos mais cabelo ao vento nem idéias vermelhas na cabeça, tampouco protestamos indo morar em barracas na frente de nossas casas. Estamos cientes de que, em quatro anos, não dá pra fundar um jornal revolucionário, que contribua com as questões populares e leve a falência os grandes grupos de comunicação conversadores.

Aprendemos que é raro estar preparado para mudar o mundo e que muitos não querem isso. Aprendemos também, com os próprios colegas de classe, que o meio jornalístico é eclético por natureza não somos engenheiros japoneses.

Nossa turma é sim, uma mistura heterôgenea, apesar de algumas pequenas fortes semelhanças. Entre nós, cabe o jornalista da Contigo e o do jornal sindical comunista. Há pessoas com fortes vínculos com outros campos de conhecimento, como artes, esporte, política, moda e meio ambiente. E, assim, nossa turma está longe de ser a mais unida. Poucas vezes nos encontramos em maioria para reuniões extra-classe, para falar amenidades ou mesmo para fazer outras coisas mais interessantes que a natureza nos exige nessa idade.

Entramos para a faculdades com a pretensão de encontrar os amigos definitivos, devido à suposta semelhança de quem faz o mesmo curso. Procuramos espelhos e econtramos uma imensa Torre de Babel. A convivência nos trouxe possíveis parceiros profissionais, prováveis pseudo-amigos, inimigos sinceros, e eles também: os amigos definitivos. Contudo, em menor número do que a expectativa inicial.

E até quem não encontrou estes, vai sentir falta de alguma coisa, mesmo que seja dos instantes vividos fora da sala de aula (tão importante quanto os de dentro) ou das rodas de debates com pessoas inflamadas, defendendo seus pontos de vista sobre a ética na televisão, como quem defende um prato de comida e fazendo perguntas e mais perguntas, não se conformando com o porquê das coisas.

Aliás, esta parece ser a sina do jornalista. Perguntar sempre, mesmo que não haja resposta. O mais cético deles deve possuir uma alma existencialista, em que as dúvidas pesam mais que as certezas. A liberdade de expressão e a auto censura parecem conviver no mesmo peito, o quê causa um peso enorme.

Afinal, devemos lealdade ao patrão ou ao que pensamos? Somos, sim, o desdobramento do mito bíblico de Daniel na cova dos leões. A briga eterna pela permanência dos ideais contra a necessidade de sobrevivência, que muitas vezes contraria nossos desejos e pensamentos. Então, é possível ser um grande jornalista mesmo trabalhando para empresas desonestas ou para veículos que insistem em defender interesses particulares ou de seus patrocinadores? É possível ser criativo, apesar de todo tecnicismo que o jornalismo brasileiro nos impõe, já que é exageradamente influenciado pelo pragmatismo exacerbado do jornalismo norte-americano? Não sabemos responder.

Cabe a cada um de nós encontrar suas respostas e encontrar os seus limites. Para isto, há exemplos de todos os tipos. Há jornalistas como José Maria Rabelo, o nosso patrono, que na década de 60 foi perseguido por um militar de alta patente, que havia sido denunciado por atos corruptos no jornal em que trabalhava. Mais tarde, em 1964, este fato contribuiu para que Rabelo fosse exilado pelos golpistas militares, assim como boa parte dos grandes jornalistas brasileiros, defensores da liberdade de expressão. Porém, os exemplos ruins parecem ser predominantes. Boris Casoy, Pedro Bial, Augusto Nunes, Mário Sérgio Conti e tantos outros que, por exemplo, ajudaram a eleger políticos de quinta categoria para a presidência do país, para depois tirá-los ou desmoralizá-los quando foi mais conveniente. E depois, como Mário Sérgio, ainda lançam livros e vendem milhares de cópias, contando sobre os bastidores que viveu, e narrando apenas sobre o que lhe interessa.

Evidentemente, temos de tirar o nosso sustento do jornalismo. Panfletarismo e discursos como esse não costumam garantir o salário no fim do mês. Devemos aliar as necessidades físicas e materiais com honra e honestidade. Apesar dos limites individuais, a ética deve prover o bem-estar coletivo. E ela deve ser praticada, mesmo que trabalhando na assessoria de imprensa do ex-senador Antônio Carlos Magalhães.

E, ainda que não atuemos na área, nunca mais assistiremos a um jornal sem escutar uma vozinha interna nos dizendo: "o repórter pegou o microfone de forma errada", "Esta crítica está fazendo jabá pra aquele cantor, ou ainda "o quê oPrograma Fantástico costuma fazer é qualquer coisa, menos jornalismo investigativo ou o show da vida."

O nosso senso crítico deve continuar se acurando. Todavia, devemos ter piedade com os colegas em ação, e não esquecer que não é fácil assessorar pessoas inassessoráveis, fazer uma entrevista ao vivo pelo rádio, sair para fazer uma matéria, apurar os fatos, escrever um texto em poucos minutos, gravar umas cincos vezes até acertar e repetir essa rotina mais umas duas vezes no dia. Ou pior ainda: faltando cinco minutos para você ir embora da redação, domingo, às cinco horas da tarde, acontece aquele desabamento num bairro do outro lado da cidade, o editor olha para os lados, não vê ninguém, a não ser você, e diz: é contigo.

E, apesar de todas essas características do jornalismo, aparece uma juíza e diz que nossa profissão pode ser exercida por alguém que não possui o diploma superior. Como se nosso ofício fosse algo simples, qualquer bobagem. Como se fossem supérfluas as noções humanísticas de sociologia, filosofia ou psicologica. Como se o jornalista não precisasse de discussão ética, nem de debates, seminários, pesquisas. Tudo besteira! Isso, após investirmos uma enorme quantidade de dinheiro em nossos estudos, vem alguém e diz que o nosso diploma não é necessário, não serve para nada. E com a justificativa de que o jornalismo não lida diretamente com a vida humana, como a medicina ou a engenharia.

Grande equívoco desta ilustríssima senhora. Mal sabe ela que jornalista mata muita gente. Pelo menos de raiva, mas mata. Quem disse que informações precipitadas e alienadas de princípios éticos não trazem danos às pessoas? Notícias infundadas, invasões de privacidades, conchavos e omissões, direta ou indiretamente, já fizeram vítimas de vários tipos, inclusive, mortais. A decisão dessa senhora tinha de passar por uma discussão ampla, e não ser tomada assim, à revelia. Merecemos respeito, como também merece respeito o restante de nossa sociedade, que consome informação.

Como vêem, somos um monte de porquês, talvez ou quem sabe. Somos uma mistura de pronomes interrogativos, verbos irregulares e substantivos abstratos. Uma espécie de gramática ambulante com muitas regras com exceção e com muita exceção que faz a regra. Somos um misto de vaidade, desejo, dúvida, explosão e embriaguez. Ainda temos resquícios de um romantismo mal curado pela lógica do mercado e da existência. Temos a fachada racional, mas nossos sonhos e vontades dominam nossas mentes. Estamos fadados a lutarmos conosco mesmo, por toda a vida.

E por fim, nossa conquista deve ser partilhada com vocês, pais, familiares, companheiros e amigos. Todos aqui presentes são importantes de alguma forma. Obrigado pelo apoio, dedicação, força, carinho e atenção. Valeu pelos ouvidos que escutaram nossas quedas e pelos ombros que suportaram nossas expetativas. Valeu também a presença de espírito dos ausentes devido ao espaço, ao tempo ou à dimensão. Nós encerramos apoiados na esperança equilibrista de que ainda vamos nos encontrar várias vezes, para celebrar outras conquistas muito maiores do que esta.

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