quarta-feira, fevereiro 06, 2002

Hoje na sessão Nostalgia, o filme: CARTA DO PASSADO
O horror da guerra o assombrava. Via a morte se aproximando a cada dia, a cada bombardeio que ouvia. Seus amigos e companheiros caíam ensanguentados e ele, sem nada poder fazer, rezava pela sua vida, pela sua família que estava longe. O jovem Edgar ficava assustado com os ataques audaciosos dos alemães que se aproximavam do front de batalha.
Buscava algum alento. Quando recebia cartas de casa, passava as horas livres as respondendo com um fio de esperança de poder receber outras. Fantasiava seu retorno a essas terras. Recordava de tudo e de todos. Se em suas cartas, os familiares contavam sobre pessoas que conheceram ou encontraram na sua ausência, escrevia para estas também, para aumentar as chances de não cair na insanidade que lhe cercava. Foi assim que um dia, escreveu para uma jovem que nunca vira. Escreveu com a esperança de um dia poder conhecê-la.
Seus familiares falavam sobre ela nas cartas. Ele não deixara nenhuma garota o esperando. Se arrependia disso. Pelo menos poderia ter um porque lutar. Porque sobreviver. Tentara escrevendo para aquela jovem, corrigir tal erro.
Na carta apenas pedia para ela responder, mesmo que fosse para lhe negar a confiança.
Os dias passavam, outras cartas chegavam, e nenhuma era a resposta aguardada.
Um dia pôde retornar para essas terras, mas nunca procurou pela garota para quem tinha escrito. Achava que ela tinha sido indelicada para se dizer o mínimo. Mas estava feliz por estar em casa e aquilo não lhe causou peso.
A carta que enviou só hoje, 57 anos depois, chegou às mãos de sua destinatária. Aconteceu que a irmã dela lhe escondera a carta por todo esse tempo. Talvez por inveja ou ciúme. Na verdade não há razão ou sentido para tal ato. Uma pergunta que não poderá sequer ser feita pois a irmã morrera.
Aquela garota, hoje uma senhora viúva, avó de dois netos, não quer ler a carta e nem quer tocar no assunto. Não quer pensar no passado, em como sua vida poderia ter sido. Arrependimentos, depois de certa idade, podem ser muito dolorosos.

Essa senhora é minha mãe.
E isso aconteceu mesmo. Parece até o enredo de um filme de mil novecentos e antigamente.
Estou pensando em devolver a carta para o tal soldado se ele estiver vivo hoje.
Mas essa história é muito louca. A minha tia foi uma das pessoas mais detestáveis que conheci. Ela nunca gostou de mim e nem eu dela. Ela deve ter ido direto pro inferno.

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