segunda-feira, fevereiro 04, 2002

Green e idealismo
Sexta feira fui ao Green tomar uma cerveja.
O Green é um boteco perto de casa. O r.e.m. tem um disco homônimo, motivo suficiente para o lugar ser diferente. Além disso, o dono tem um gosto musical acima da média. O dono é um figuraça. Já foi músico e chegou a tocar com Elis Regina. Aliás figuras são o que não faltam no bar.
Já conheci várias lá.
Pois eu estava lá bebendo e conversando com um vizinho conhecido. Daí apareceu um senhor amigo dele. Ele se sentou e se apresentou.
Seu nome é Jésus. Tem 56 anos, casado com uma moça muito mais jovem e com duas filhas.
Depois fiquei sabendo de sua história. Foi perseguido e preso durante a ditadura. Era jovem nessa época e lutava pelos seus direitos e pelo direito dos outros. Foi chamado de subversivo. É intelectualizado mas sem ser como a maioria. Não era pedante.
Ele contava que sua filha mais velha estava indo para o 1° ano na escola. Pensava que educação ela poderia ter em um país onde a educação é relegada a segundo plano e os jovens estudantes aceitavam tudo passivamente. Ninguém lutava mais por nada. E começou a chorar. Chorava pela apatia que via. Já tinha lutado muito durante a vida e ainda “lutava” pelo sustento da família. Era um idealista ferido, amargurado, caído.
Me senti velho, me senti muito mais velho que ele. Mais velho que os sonhos de qualquer um. O seu idealismo ingênuo me atingira apenas pelo fato de ser um idealismo ingênuo. Eu vi ali uma ponta enraizada de amor ao país, às idéias e ao futuro. Um amor incompreendido e tolo, mas nem por isso menos belo. Eu já desistira disso tudo há muito tempo e me vi de repente como um grande imbecil.
Ele, chorando, pediu desculpas e se foi, me deixando com mais vontade de beber a minha cerveja. Nessas horas, beber muito não parece ser uma má idéia.
Os outros que estavam no bar pensavam que ele chorava por que tinha bebido além da conta. Ele era o mais são. O mais humano. E eu me envergonhava por ter perdido aquilo.
Hoje não sou mais tão revoltado com as coisas. As aceito na maioria das vezes. Isso pode ser muito errado, mas ficar sofrendo por razões políticas e idealistas já não tem muito sentido para mim.
Bebi mais. E fui embora tarde.

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